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Distantes demais

Saturday, April 30, 2005

Richard III

It is now dead midnight.
Cold fearful drops stand on my trembling flesh.
What do I fear? Myself? There's none else by.
Richard loves Richard; that is, I am I.
Is there a murderer here? No. Yes. I am.
Then fly! What, from myself? Great reason. Why?
Lest I revenge? Myself upon myself?
Alack, I love myself. Wherefore? For any good
That I myself have done unto myself?
O no, alas, I rather hate myself
For hateful deeds committed by myself.
I am a villain. Yet I lie: I am not.

Thursday, January 20, 2005

Mundo melhor

Você que está me escutando
É mesmo com você que estou falando agora
Você que pensa que é bem, não pensar em ninguém
E que o amor tem hora
Preste atenção meu ouvinte
O negócio é o seguinte
A coisa não demora
E se você se retrai
Você vai entrar bem, ora se vai
Conto com você, um mais um é sempre dois
E depois bom mesmo, é amar e cantar junto
Você deve ter muito amor pra oferecer
Então pra que não dar o que é melhor em você
Venha e me dê a sua mão
Porque sou seu irmão na vida e na poesia
Deixe a reserva de lado
Eu não estou interessado em sua guerra fria
Nós ainda havemos de ver uma autora nascer
Um mundo em harmonia
Onde é que está sua fé?
Com amor é melhor
Ora se é

Thursday, January 20, 2005

Sem fantasia

Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus

Tuesday, January 18, 2005

Sete anos de pastor Jacob servia...

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Sunday, January 2, 2005

Sonetilho de verão

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.

A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

Saturday, January 1, 2005

Vida

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia
Mais doce da vida
Na mesa dos homens
De vida vazia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida
Nos cantos, na pia
Na casa dos homens
De vida vadia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Thursday, December 30, 2004

Wedding song 2

You breathed on me and made my life a richer one to live,
When I was deep in poverty you taught me how to give,
Dried the tears up from my dreams and pulled me from the hole,
Quenched my thirst and satisfied the burning in my soul.

Oh, can't you see that you were born to stand by my side
And I was born to be with you, you were born to be my bride,
You're the other half of what I am, you're the missing piece
And I love you more than ever with that love that doesn't cease.

You turn the tide on me each day and teach my eyes to see,
Just bein' next to you is a natural thing for me
And I could never let you go, no matter what goes on,
'Cause I love you more than ever now that the past is gone.

Monday, December 27, 2004

Benvinda

Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente
Que há lugar na minha mesa
Pode ser que você venha
Por mero favor
Ou venha coberta de amor
Seja lá como for
Venha sorrindo, ai
Benvinda
Que o luar está chamando
Que os jardins estão florindo
Que eu estou sozinho

Cheio de anseios e esperança
Comunico a toda a gente
Que há lugar na minha dança
Pode ser que você venha
Morar por aqui
Ou venha pra se despedir
Não faz mal
Pode vir até mentindo, ai
Benvinda
Que o meu pinho está chorando
Que o meu samba está pedindo
Que eu estou sozinho

Venha iluminar meu quarto escuro
Venha entrando como o ar puro
Todo novo da manhã
Venha minha estrela madrugada
Venha minha namorada
Venha amada
Venha urgente
Venha irmã
Benvinda
Que essa aurora está custando
Que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho

Certo de estar perto da alegria
Comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha
Um carinho para dar
Ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar
Que é tempo ainda, ai
Benvinda
Ah, que bom que você veio
E você chegou tão linda
Eu não cantei em vão
Benvinda
No meu coração

Saturday, December 25, 2004

Que suave é o ar! Como parece...

Que suave é o ar! Como parece
Que tudo é bom na vida que há!
Assim meu coração pudesse
Sentir essa certeza já.

Mas não; ou seja a selva escura
Ou seja um Dante mais diverso,
A alma é literatura
E tudo acaba em nada e verso.

Thursday, December 23, 2004

Wedding song

I love you more than ever, more than time and more than love,
I love you more than money and more than the stars above,
Love you more than madness, more than waves upon the sea,
Love you more than life itself, you mean that much to me.

Ever since you walked right in, the circle's been complete,
I've said goodbye to haunted rooms and faces in the street,
To the courtyard of the jester which is hidden from the sun,
I love you more than ever and I haven't yet begun.

Monday, December 20, 2004

Ódio sagrado

Ó meu ódio, meu ódio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo,
Unge-me a fronte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.

Humilde, com os humildes generoso,
Orgulhoso com os seres sem Desejo,
Sem Bondade, sem Fé e sem lampejo
De sol fecundador e carinhoso.

Ó meu ódio, meu lábaro bendito,
Da minh'alma agitado no infinito,
Através de outros lábaros sagrados.

Ódio são, ódio bom! sê meu escudo
Contra os vilões do Amor, que infamam tudo,
Das sete torres dos mortais Pecados!

Saturday, December 18, 2004

Dimanche

Entre les rangées d'arbres de l'avenue des Gobelins
Une statue de marbre me conduit par la main
Aujourd'hui c'est dimanche les cinémas sont pleins
Les oiseaux dans les branches regardent les humains
Et la statue m'embrasse mais personne ne nous voit
Sauf un enfant aveugle qui nous montre du doigt.

Friday, December 17, 2004

Capítulo IV - A idéia fixa

Era fixa a minha idéia, fixa como... Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a Lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século. Obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera logo brincalhona, cousa que não edifica nem destrói, não inflama nem regala, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.

Wednesday, December 15, 2004

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Tuesday, December 14, 2004

Feito nós

Feito um anjo decadente
Meio santo, meio gente, à meia luz
Feito virgem inocente
Meio Deus, meio demônico, feito nós
Feito bicho em longo cio
Meio bom, meio ruim, quase normal
Feito a vida, enlouquecida
Meio morte, meio gozo
E carnaval
Séculos de lutas e de luto
Máscaras de dor e de arrogância
Décadas de nomes e de fome
Pátrias dissolvidas pelo poder
Lâmina que corta a carne fraca
Código de ética da raça
Máquina que mata sem remorso
Mácula na branca luz da manhã
Feito um mártir meio ingênuo
Meio burro, meio gênio, nada mais
Feito louco, feiticeiro
Meio Cristo, meio Exu e Satanás
Mágicos e faunos na floresta
Lógica da física concreta
Cântico eternos como o vento
Tempo de escutar a terra falar
Lágrimas de todas as crianças
Dádiva de amor e de esperança
Pálido o futuro nos abraça

Monday, December 13, 2004

Disritmia

Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia pra fugir do mundo
Pretendo também me embrenhar
No emaranhado desses seus cabelos
Preciso transfundir seu sangue
Pro meu coração que é tão vagabundo

Me deixa te fazer um dengo,
Pra num cafuné fazer os meus apelos

Eu quero ser exorcizado
Pela água benta desse olhar infindo
Que bom é ser fotografado,
Mas pelas retinas desses olhos lindos
Me deixe hipnotizado
Pra acabar de vez com essa disritmia

Sunday, December 12, 2004

Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Por que não sabem que o mar
É de quem o sabe amar

Saturday, December 11, 2004

Manifesto coprofágico (1977)

a merda na latrina
daquele bar da esquina
tem cheiro de batina
de botina
de rotina
de oficina gasolina sabatina
e serpentina

bosta com vitamina
cocô com cocaína
merda de mordomia de propina
de hemorróida e purpurina

ó merda com teu mar de urina
com teu céu de fedentina
tu és meu continente terra fecunda onde germina
minha independência minha indisciplina

és avessa foste cagada da vagina
da américa latina

Friday, December 10, 2004

Álcool

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraiso? ...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
E só de mim que ando delirante-
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Wednesday, December 8, 2004

Poemas para a amiga - fragmento sete

Estranho e duro amor
que não se basta
e de outros amores se socorre
e se compensa
e neste alheio compensar-se
nunca se alimenta,
mas se avilta e se desgasta.

Estranho amor,
ferino amor,
instável amor

feito sem muita paz,
com certo desengano
e um desconsolo prolongado.

Feito de promessas sem futuro
e de um presente de saudades.
Chorar tão dúbio amor
quem há-de?

Sunday, December 5, 2004

A confissão de Lúcio

Ah! como Gervásio tinha razão, como eu no fundo abominava essa gente - os artistas. Isto é, os falsos artistas cuja obra se encerra nas suas atitudes; que falam petulantemente, que se mostram complicados de sentidos e apetites, artificiais, irritantes, intoleráveis. Enfim, que são os exploradores da arte apenas no que ela tem de falso e de exterior.
Mas, na minha incoerência de espírito, logo me vinha outra idéia: - Ora, se os odiava, era só afinal por os invejar e não poder nem saber ser como eles…
Em todo o caso, mesmo abominando-os realmente, o certo é que me atraíam como um vício pernicioso.
Durante uma semana - o que raro acontecia - estive sem ver Gervásio.

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